Pais e filhos
Suprir as necessidades emocionais do bebê é tão primordial
quanto as de alimentação e de higiene. Essa é uma das tarefas mais
árduas que os pais terão pela frente, pois deverão apreender o
significado de cada choro, de cada expressão de seu rosto, para
poder satisfazê-las. Ao nascer, a criança não vem acompanhada de
manual de instruções e não chega dominando a linguagem para se
expressar.
É através do choro que manifesta quando algo não está bem. Os
pais se desesperam por não conseguir entender seu sofrimento e o
que está querendo transmitir.
Muitas vezes, o único desejo do bebê é estar no colo da própria
mãe, aconchegado, para que escutando e reconhecendo seus sons
internos, mais precisamente, o batimento cardíaco, com que conviveu
por longos meses, possa se acalmar, sentindo-se novamente segura e
protegida deste mundo que lhe é totalmente desconhecido e,
portanto, ameaçador.
Outro som tão seu conhecido, é o da voz materna, que aprendeu a
discernir entre tantos outros quando ainda se encontrava em seu
útero. É a voz mais suave e melodiosa e que lhe dá imenso prazer,
pois a reassegura contra seus próprios medos e angústias.
Aos poucos, os pais vão aprendendo a identificar o significado
de cada manifestação infantil e assim, entre acertos e erros, vão
construindo o próprio manual junto com seu filho.
Essa afinidade na identificação dos sentimentos infantis é de
suma importância para a qualidade do vínculo materno-filial, que
irá se estabelecer com o decorrer do tempo, e que vai sendo
fortificado através da crescente confiança entre eles.
As emoções vão sendo decodificadas para a criança, que se
desenvolve sabendo nomeá-las de uma forma natural e honesta. Para
isso, faz-se necessário que os sentimentos considerados socialmente
inaceitáveis como raiva, ódio, ciúme, inveja, sejam aceitos da
mesma maneira que os chamados “positivos”, como amor,
alegria, generosidade, carinho, prazer e outros.
Se uma criança for ridicularizada ou repreendida pelos seus
sentimentos, passará a ocultá-los toda vez que os sentir, o que
dificultará a compreensão dos pais em relação às atitudes de seu
filho, distanciando-os um do outro cada vez mais.
Desenvolvendo-se num ambiente familiar onde as emoções,
quaisquer que sejam, possam ser vivenciadas e aceitas, onde os pais
deem espaço para que o filho possa falar livre e espontaneamente,
quando chegar a adolescência este mesmo filho sentir-se-á à vontade
para falar de outros problemas que o aflige, podendo ser melhor
orientado.
Muitos pais iniciam o diálogo com seus filhos mais tarde, quando
acham que já estão aptos para compreender o significado das
palavras, esquecendo-se que uma relação se constrói precocemente,
desde seu início, para que a confiança possa ser conquistada.
Como desejar que tenham intimidade suficiente para dialogar, se
se passou tanto tempo sem perceber o quanto ficaram à mercê de suas
próprias emoções e dificuldades em fases anteriores.
Uma relação de amizade e amor só será possível se, desde muito
cedo, a criança se sentir compreendida e respeitada em seus
sentimentos para aceitá-los como parte de si mesma e, assim, se
sentir autorizada a falar sobre o que lhe está causando angústia ou
sofrimento, bem como, alegria e prazer